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A maior justificativa para a existência deste, está no fato de que sinto-me impulsionado a escrever e partilhar aquilo que de mais íntimo brota do meu ser. Acredito ser um dom que Deus me deu. Se algum dia este impulso me faltar, faça orações por mim, pois já estarei diante d'Ele.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

PORTAS FECHADAS

Desde que recebi dispensa das ordens sacerdotais, por princípio, procurei evitar qualquer assunto sobre minha vida como frade e como padre. Tal decisão não se deu pelo fato de não sair bem comigo mesmo ou com os demais confrades ou irmãos no sacerdócio. Pelo contrário, saí amigo de todos e mesmo depois que saí, minha casa foi muito freqüentada pelos meus colegas de ordem. O fato de evitar falar sobre o assunto só tinha um objetivo: evitar que certas especulações, que não levariam a crescimento nenhum, pudessem ser aguçadas. Hoje, depois de muito tempo, vejo que posso expressar neste espaço um pouco do que significou para mim o deixar a vida religiosa à qual pertencia e também a dispensa do ministério sacerdotal. Passaram-se dez anos e tenho certeza de que as curiosidades que seriam aguçadas na época, não aguçam mais. Tudo depende do momento e creio que o momento é este.
Durante dezessete anos fui frade capuchinho da Província Nossa Senhora dos Anjos, RJ e ES. Por Dez anos exerci o ministério como padre. Durante o tempo em que exerci o ministério tive um pensamento só: o dia em que eu não conseguisse levar com seriedade o compromisso assumido diante de Deus e dos homens, conforme a função requer, eu pediria licença por um ano e no final deste, se achasse melhor, pediria dispensa do ministério sacerdotal. Assim o fiz. Foi uma decisão radical. O processo de saída foi doloroso. Além de ser uma vida muito bonita, repleta de bênçãos e onde há condições de realmente ajudar alguém, principalmente os menos favorecidos, o fato de pedir dispensa tratava-se de uma mudança radical na minha vida. Tal decisão posso garantir que não foi de uma hora para outra. Foi resultado de um pensar (refletir) que durou dentro de mim no mínimo quatro anos. Foi um recomeçar aos quarenta anos de idade.
No pensar em sair da vida religiosa e sacerdotal, sempre me preparei para possíveis desafios: começar vida familiar aos quarenta anos de idade; não ser bem visto por boa parte de meus colegas confrades como antes (pela cultura que se criou com relação aos ex-frades e “ex-padres”); instabilidade econômica ligada ao desemprego... Imaginem estes desafios e vários outros, durante quatro anos ou mais na cabeça de alguém que deseja dar outro passo! A sorte é que me preparei bem, se não, hoje seria um revoltado, um desajustado. Preparei-me até para possíveis portas fechadas. Hoje, só tenho que louvar ao bom Deus por tudo.
Lembrando de portas fechadas, um fato curioso aconteceu logo após minha saída e este mexeu muito comigo. Foi na Cidade de Teófilo Otoni, numa determinada paróquia, por ocasião do dia da Padroeira do Brasil. Como de costume fui à igreja fazer orações e nem as havia feitas por completo quando uma funcionária da igreja perguntou-me se iria demorar muito, pois precisava fechar a igreja. Isso me marcou, mas eu estava preparado para isso e para ser o último na fileira dos bancos da igreja. Outro fato marcante foi o de ser chamado para contribuir num encontro de lideranças católicas numa paróquia vizinha a Padre Paraíso. O pároco da época não me viu com bons olhos, nem me chamou para entrar em sua casa e com algumas palavras ásperas, fez até uma irmã da Congregação das Irmãs de Santa Catarina, que estava comigo, chorar. Apesar do contratempo, fiz a palestra (o tema era bíblico). Ressalto aqui que o trabalho foi voluntário.
Como eu não tinha emprego e ainda cursava o terceiro ano do curso de letras, minha vida econômica tornou-se desastrosa. Aluguei uma casa em Teófilo Otoni sem mesmo saber se no final do mês haveria como pagar o aluguel. Como disse antes, saí bem com a Província à qual pertencia e foi ela que me deu suporte para sobreviver e terminar o referido curso, apesar de logo depois conseguir algumas aulas num Colégio Militar da cidade. Após juntar-me à minha esposa (Izabel), logo vieram os filhos: Bárbara e Guilherme. Muitas dificuldades juntaram-se a mim, mas também estava comigo a benevolência de Deus nas pessoas de minha mãe, do Provincial dos Capuchinhos, frei João Carlos e de Padre Joel Ferreira aos quais serei eternamente grato.
Após passar num concurso público estadual para professor, passei a residir na cidade de Padre Paraíso MG. Nesta, não conhecia praticamente ninguém, mas como sempre, a benevolência divina estava comigo e minha família e graças à mesma, meus colegas professores me ajudaram sem medir esforços, assim como Padre Júlio Gamboa que alugou para mim a antiga casa das irmãs. Registro aqui que, apesar de ser na condição de aluguel, o referido padre nunca levou em consideração (em primeiro lugar) o fator monetário e sempre era paciente, tolerante com relação às mensalidades que por vezes atrasavam, mas nunca deixaram de serem pagas. Bom e misericordioso, Padre Júlio sempre agiu com o coração cheio de misericórdia. Nunca deixou que os “cifrões monetários” lhe fizessem a cabeça e muito menos deixou se manipular por alguns que se destacavam economicamente e queriam ter poder de decisão muito maior do que o do próprio padre na Igreja. Por esse motivo e muitos outros, o referido padre deixou saudades. Deixo registrado aqui também que foi durante este período que nasceram minhas filhas gêmeas (Izabela e Izadora) e com certeza elas nos deram um grande sinal da presença de Deus em nossa vida. Com elas, Deus completou o que estava faltando.
Com a chegada das Irmãs da Congregação de Santa Catarina, tive que entregar a casa para as mesmas. Morei cinco anos em outro endereço e muito tenho a agradecer ao proprietário da casa. As irmãs foram embora e com isso surgiu a possibilidade de voltar a residir novamente na casa da paróquia. Dificuldades vieram. Incompreensões não faltaram e com elas mais uma vez passei pela experiência da porta fechada, e dessa vez parece que a experiência dolorosa durou mais, pois partiu de onde eu não esperava. Por mais preparado que eu estivesse, confesso que me abalou bastante. Como eu disse acima, o que não me faltou foi a Providência Divina. Mais uma vez tive certeza que a graça de Deus é maior do que qualquer contratempo, mesmo se este parte de um ser que se diz sacerdote ou ministro de Deus.
Alguém pode então ter curiosidade e perguntar: e hoje? Com toda certeza posso dizer que me sinto bem. Descobri que a vida fora da vida religiosa também é bonita, repleta de bênçãos e também há condições para ajudar realmente as pessoas, principalmente aos menos favorecidos. O certo é que me faltava apenas “quebrar o casulo” para que percebesse tal realidade. Hoje, minha família está constituída. Somos sete em casa: eu, minha esposa, os quatro filhos e minha mãe. Tenho dois cargos efetivos como professor no Estado. Até o presente momento estou à disposição da Prefeitura de Padre Paraíso. As dificuldades continuam e com certeza serão vencidas e para isso conto com as inúmeras bênçãos do todo Criador e Redentor, além de contar com todos, exceto com a “Instituição Igreja Católica” de Padre Paraíso, principalmente no que se refere ao apoio, abertura, compreensão, solidariedade, diálogo, durante minha difícil caminhada. Continuo Católico Apostólico Romano e nesta fé devo permanecer, pois não será a mentalidade capitalista de alguém que está à frente desta igreja que irá mudar minha fé, pois tenho certeza de que, como rezamos na celebração eucarística, a Igreja é santa e pecadora e a Graça Santificante presente nela será capaz de transformar sua realidade, por mais crucial que seja. Como um grande teólogo disse ao abandonar o sacerdócio, faço minhas suas palavras: “continuo na mesma batalha. Apenas mudei de trincheira”. Desse lado, continuo a orar e a pedir a Deus sincera conversão e que Ele na sua infinita bondade continue nos ajudando a superar obstáculos, principalmente porque os mesmos não são de sua vontade e sim impostos. Que Ele não nos deixe ter mágoas e transforme de vez principalmente os “corações monetários” ensinando-os a agir com misericórdia, tolerância, mansidão, pois são condições mínimas para alguém (mesmo para quem se diz estar à frente de uma instituição religiosa) estar em condições de perceber a realidade do outro e acolhê-lo conforme Deus quer.

2 comentários:

TATOO MINEIRO disse...

Sempre há uma grande curiosidade das pessoas em relação à mudança de vida de uma ex-padre. Imagino o quanto tenha sido difícil pra voce esta mudança. Quero que saiba que o meu respeito por ti só aumentou com este depoimento pessoal e sincero. Que Deus continue te abençoando ricamente juntamente com sua família e conte sempre comigo em tudo que eu puder ser útil. Grande abraço!

Toninho do Pátio!

Jessé disse...

Caro Toninho, de você só espero algo bom. Obrigado pelo apoio. Estamos juntos nesta caminhada e o que você precisar de mim, estando ao meu alcance, pode contar. Abraço Faterno Jessé